OS AVANÇOS DA PECUÁRIA DE CORTE
Casa Branca, 13 de maio de 2010, quinta-feira.
Em tempos que tanto se fala, e com exagero, sobre os supostos impactos ambientais da pecuária de corte, a necessidade de ganho na produtividade aparece como solução viável para mitigar tais impactos.
No entanto, a pecuária vem avançando em produtividade há anos, desde o início da década de 70.
Conhecemos as dificuldades estatísticas para se analisar dados da pecuária brasileira, especialmente após a publicação do Censo 2006, que acabou agregando mais perguntas do que respostas.
O Censo de 2006 (IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) concluiu que o rebanho brasileiro seria de 171,6 milhões de cabeças. Porém, o mesmo IBGE indica um rebanho de 205,8 milhões de cabeças para o ano de 2006, segundo a pesquisa pecuária municipal, ou PPM como é conhecida.
A diferença entre ambos os dados, em torno de 34 milhões de cabeças, supera o rebanho do México e da Austrália que ocupam, respectivamente, a oitava e a décima posição no ranking mundial de rebanhos bovinos, segundo a FAO (Food and Agricultural Organization), das Nações Unidas.
Apesar do rebanho inferior, a Austrália ocupa o quinto lugar no ranking de produção de carne bovina, ainda de acordo com a FAO. Essa comparação, sempre lembrada por diversos articulistas, nos serve para estabelecer o grau da seriedade da contradição das informações pecuárias no Brasil.
Mesmo que existam diversas outras estimativas para o tamanho do rebanho brasileiro, não é lógico fugirmos dos dados do IBGE. É o único instituto que reúne informações suficientes para chegar o mais próximo possível da realidade. Os demais institutos ou empresas privadas não possuem orçamento e nem metodologia permanente para contabilizar o número do rebanho brasileiro.
Mesmo que trabalhássemos com critérios rigorosos e bem baseados para estimar o rebanho, não haveria como superar uma fonte pesquisada. Isso tudo aumenta a frustração em torno da divulgação de dados tão incoerentes sobre a mesma realidade.
Pois bem, o objetivo do texto é discutir o avanço da produtividade e não o tamanho do rebanho. Embora o tema seja de grande importância, muito já se falou sobre o assunto.
A mesma informação pesquisada pelo IBGE, que chegou ao rebanho de 171,6 milhões de cabeças bovinas no Brasil, identificou uma ocupação média de 0,93 hectares por bovino do rebanho. Se o rebanho for realmente menor, estaríamos falando de uma área total de pastagens em torno de 159,6 milhões de hectares em 2006.
Todas as publicações e artigos consideram áreas de pastagens de 170 milhões a 220 milhões de hectares. A informação mais aceita é a área de pastagens em uso girando por volta de 175 milhões de hectares, além de 45 a 50 milhões de hectares de pastagens degradadas.
É outra informação que nos leva a questionar os dados do Censo de 2006. Pelo próprio censo anterior, realizado 10 anos antes, em 1996, estaríamos considerando uma redução da área da ordem de 17,9 milhões de hectares, frente a um aumento de rebanho da ordem de 18,5 milhões de cabeças. Essa área é proporcional a todo o pasto do Estado de Goiás.
Sendo assim, é preciso estabelecer parâmetros e optar por uma ou outra fonte de informação que seja contundente e possibilite compreender o ocorrido na pecuária brasileira.
Considerando que os critérios para coleta de informações do Censo tenham sido seguidos na pesquisa, é possível considerar que o dado de ocupação da área, divulgado no Censo 2006, esteja correto. Em outras palavras, estaríamos assumindo que o Censo foi eficiente na captação dos dados, mas ineficiente em contar todo o rebanho nacional.
Assim, teríamos o rebanho de 2006 oscilando de 171,6 a 205,8 milhões de cabeças e a área de pastagens entre 159,6 e 175,5 milhões de hectares.
Observe na figura 1 a evolução da ocupação da área de pastagens nos últimos censos agropecuários realizados entre 1940 e 2006.
Figura 1.
Ocupação da área de pecuária no Brasil em cabeças por hectare

Fonte: Censo 2006 – IBGE / elaboração Bigma Consultoria
Hoje, o rebanho mais aceito entre os profissionais da pecuária de corte é apresentado pela pesquisa pecuária municipal (PPM), o qual continuaremos a adotar até que informações mais coerentes sejam divulgadas.
Corrigindo a área de pastagens para o rebanho de 205,6 milhões de cabeças em 2006 e considerando que a eficiência de uso de pastagens veio aumentando proporcionalmente ao indicado pelos históricos dos Censos agropecuários, em 2009 a ocupação da área pela pecuária seria em torno de 1,16 animais por hectare.
Projetando o rebanho de 2009 pela pesquisa pecuária municipal e considerando a área de pastagens atual em torno dos 174,95 milhões de hectares, é possível montar a figura 2, referente à evolução da ocupação por área no Brasil. Observe como o rebanho continua crescendo, enquanto as pastagens estabilizam-se por um período e começam lentamente a recuar nos últimos anos.
O recuo seria comprovado pelo avanço da agricultura em áreas de pastagens nos últimos anos.
Figura 2.
Evolução das áreas de pastagens do rebanho bovino no período de 1974 a 2009 em milhões de cabeças e milhões de hectares.

Fonte: IBGE/Bigma Consultoria
Claramente, na figura, é possível notar a redução do rebanho nos anos de ciclo de baixa nos preços. Neste período houve um aumento no número de cabeças abatidas. Logo em seguida, o rebanho voltaria a aumentar tanto pela redução do abate como pela retenção de matrizes, consequência da virada do ciclo pecuário para o período de alta.
Com pouca alteração anual nos índices de natalidade, a oscilação do rebanho é relacionada com os movimentos de aumento ou redução do abate. Este, por sua vez, depende da produção de carne para atender a demanda.
Na figura 3 é apresentada a produção anual de carne bovina em mil toneladas de equivalente carcaça. A definição de equivalente carcaça é uma forma de padronizar toda a produção industrial em carcaças bovinas. Sendo assim:
1 kg de carne em carcaça = 1 kg de equivalente carcaça;
1 kg carne desossada = 1 ,3 kg de equivalente carcaça;
1 kg de carne industrializada = 2,5 kg de equivalente carcaça.
Figura 3.
Produção anual de carne bovina em mil toneladas de equivalente carcaça

Fonte: Conab/Abiec/Bigma Consultoria
Comparando evolução da produção de carne com a evolução da área, nota-se um aumento de 84% na produtividade por área ocupada no período de 1994 a 2009. Observe a evolução da produtividade na figura 4.
Figura 4.
Evolução da produtividade da pecuária em kg de carcaça por hectare

Fonte: Conab/Ibge/Abiec/Bigma Consultoria
O aumento da produtividade entre 2006 e 2007 é artificial, reflexo do descarte de matrizes, aliado a uma demanda favorável para a carne brasileira.
Traçando uma linha e desconsiderando ambos os anos, chega-se aos 84% de ganho de produtividade neste período.
Interessante que a produtividade de carne aumentou os referidos 84%, enquanto a lotação por hectare aumentou 30,7% no mesmo período.
Essa diferença evidencia que a maior parte do ganho de produtividade advém da área zootécnica, ou seja, das tecnologias relacionadas ao próprio animal.
Na área agronômica, a pecuária de corte ainda tem muito espaço para agregar na produtividade. Sendo assim, é fato comprovado que a produção de carne bovina no Brasil pode crescer muito mais, atendendo o mercado crescente em todo o planeta, e destinando mais de suas áreas para a agricultura.
E claro que podemos esperar para os próximos anos um ganho de produtividade bem superior ao que foi observado nos últimos anos.
Portanto, em termos de espaço, rentabilidade e proteção ambiental, a pecuária brasileira pode ser muito mais relacionada a oportunidades do que a ameaças. Basta querer enxergar fatos e dados.
Maurício Palma Nogueira
engenheiro agrônomo,
diretor da Bigma Consultoria
mauricio@bigma.com.br ou 19 3671 5107
www.bigma.com.br
Publicada em: 22/07/2010
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